Insegurança nas ruas do Rio de Janeiro

Você está com a impressão de que as ruas do Rio de repente ficaram mais inseguras? Infelizmente não é apenas impressão. Os dados de criminalidade de 2013 divulgados recentemente pelo Instituto de Segurança Pública revelam um forte aumento no número de roubos no estado do Rio de Janeiro no ano passado.

O Gráfico 1 mostra como a taxa de crimes ao patrimônio por 100 mil habitantes evoluiu no estado do Rio de Janeiro nos últimos sete anos. Compara-se os números da capital com os da região metropolitana (excluindo a capital) e os de outros municípios do estado. Crimes ao patrimônio incluem roubos ao comércio, residência, veículo, carga, transeunte, banco, caixa eletrônico, roubo em coletivo, roubo com condução à saque, furto de veículos, sequestro, extorsão, sequestro relâmpago e estelionato.

Gráfico 1 – Taxa de crimes ao patrimônio em regiões do estado do Rio de Janeiro Fonte: Instituto de Segurança Pública. Elaboração própria.

Fonte dos dados: Instituto de Segurança Pública do Rio de Janeiro. Elaboração própria.

Observa-se que em 2013 houve uma reversão da trajetória de queda de crimes ao patrimônio que vinha ocorrendo desde o segundo semestre de 2009 na capital do Rio de Janeiro. No segundo semestre de 2013, foram feitos aproximadamente 45 mil registros de crimes desta categoria, o que representa uma taxa de 700 registros por 100 mil habitantes e equivale a um aumento de 21% em relação ao mesmo período de 2012. Entretanto, o nível atual ainda está abaixo da média semestral de 805 incidências por 100 mil habitantes que prevalecia em 2007 e 2008, período antes da instalação das UPPs. Já na região metropolitana, o segundo semestre de 2013 apresentou uma taxa de 555 ocorrências de crimes ao patrimônio por 100 mil habitantes, o que representa um aumento de 31% em um ano ou de 23% em relação à média de 2007-2008.

Quais os crimes ao patrimônio que mais têm subido? O Gráfico 2 mostra a expansão dos roubos de rua, que responderam por 70% do crescimento de crimes ao patrimônio no município do Rio. Em algumas delegacias em particular, o aumento de roubos de rua foi muito expressivo. Entre 2012 e 2013, o número de registro mais que dobrou nas seguintes delegacias de polícia (DP) do município do Rio: DP 16 (que cobre os bairros da Barra da Tijuca, Itanhangá e Joá), DP 9 (Catete, Cosme Velho, Flamengo, Glória e Laranjeiras), DP 41 (Santa Teresa), DP 10 (Botafogo, Humaitá e Urca), DP 32 (Anil, Cidade de Deus, Curicica, Gardênia Azul, Jacarepaguá e Taquara), DP 7 (Freguesia, Pechincha e Tanque), e DP 17 (Caju, Mangueira, São Cristóvão e Vasco da Gama).

Na região metropolitana, o aumento de crimes ao patrimônio também é puxado pelo aumento de roubos de rua, seguido pelo aumento de roubos de carro, que juntos explicam a quase totalidade (87%) do aumento de ocorrências de crimes ao patrimônio. Algumas delegacias se destacam pelo aumento de mais de 60% nos registros de roubos de rua: DP 54 (Belford Roxo), DP 62 (Duque de Caxias), DP 64 (São João de Meriti),  DP 75 (São Gonçalo),  DP 79 (Niteroí) e DP 71 (Itaboraí).

Gráfico 2 – Roubos de rua por 100 mil habitantes no estado do Rio de JaneiroFonte dos dados: Instituto de Segurança Pública do Rio de Janeiro. Elaboração própria.

Fonte dos dados: Instituto de Segurança Pública do Rio de Janeiro. Elaboração própria.

Será possível interpretar esses aumentos como um efeito negativo da política de pacificação? Essa análise gráfica não permite chegar a essa conclusão porque o aumento de roubos em 2013 ocorre bem depois do início (fim de 2008) ou da intensificação da política de pacificação (2009-2011). Ao contrário, o que se observa é que conforme a política de pacificação foi sendo intensificada, houve uma redução de roubos de ruas e crimes ao patrimônio na cidade do Rio, que é muito mais acentuada do que nas outras regiões do estado. A indicação de que a política de pacificação contribuiu no curto-prazo para a queda de crimes contra o patrimônio na cidade do Rio de Janeiro é confirmada pelo estudo “Os Efeitos da Pacificação sobre o Crime, a Violência e a Atividade Policial”, dos economistas Claudio Ferraz e Bruno Vaz, que compara os indicadores de criminalidade por delegacia do município do Rio de Janeiro. Eles observaram que as delegacias mais afetadas pela política de pacificação tiveram uma maior redução no registro de roubos entre 2007 e 2012 do que as delegacias que não cobrem favelas pacificadas. O estudo não inclui o ano de 2013, quando houve a reversão da tendência de queda e um aumento de roubos no município do Rio.

Não é possível afirmar, porém, que o aumento de roubos verificado em 2013 não tem nenhuma relação com a política de pacificação, principalmente considerando que essa é a principal política de segurança do estado. Mas o fato desse aumento ser tão recente e bastante pronunciado tanto na capital quanto na região metropolitana sugere que houve alguma outra mudança no fim de 2012 ou no ano de 2013. Eu considero duas hipóteses. A primeira hipótese tem a ver com possíveis mudanças no policiamento ostensivo das ruas, que é algo que reflete diretamente nos roubos de rua. Seria preciso analisar os números de efetivo e distribuição policial para verificar se algo mudou na forma que a polícia aloca os policiais. Infelizmente, esses números não são divulgados pelo Instituto de Segurança Pública. A segunda hipótese é relacionada com a percepção e reação dos criminosos à política de pacificação. É possível que as pessoas envolvidas com o crime tenham mudado sua estratégia após observarem a consolidação da estratégia de pacificação. Esse ponto, entretanto, é mais difícil ainda de ser avaliado, dado que requer informações sobre o comportamento dos criminosos.

Mesmo sem identificar a causa, o aumento recente de roubos no Rio de Janeiro não pode ser ignorado. Na região metropolitana, a taxa atual já atingiu um nível bem superior à média de todo o período analisado. Na cidade do Rio de Janeiro, apesar do aumento recente de crimes ao patrimônio ainda não ter sido suficiente para comprometer os ganhos obtidos nos últimos anos, se o ritmo de crescimento persistir em 2014, a melhora recente pode ficar ameaçada.

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