Diga-me com quem andas e eu te direi quem você será

Um jovem que vive em comunidades marcadas pelo crime tem mais chances de se tornar um criminoso? Para muita gente que observa todos os anos jovens sendo aliciados pelo tráfico em bairros e favelas violentas espalhados pelo Brasil, a resposta a essa pergunta é óbvia. Mas a primeira evidência contundente sobre a existência de uma relação de causa e efeito entre interações sociais e envolvimento criminal foi recentemente estimada pelos pesquisadores Anna Damm e Christian Dustmann. No estudo “Does Growing Up in a High Crime Neighborhood Affect Youth Behavior?”, que acaba de sair na American Economic Review, eles estimam que jovens têm mais chances de cometer crimes quando moram em locais com elevado número de pessoas condenadas pela Justiça. Mais precisamente, o aumento de 1% na taxa de pessoas condenadas em uma localidade eleva a probabilidade de um indivíduo que mora nesse local ser condenado por ter cometido um crime entre 7% e 11%.

Cena do filme Cidade de Deus, 2002.

Cena do filme Cidade de Deus, 2002.

A grande contribuição desse estudo é desassociar a influência de interações sociais de fatores como pobreza, famílias desestruturadas, um sistema educacional deficiente, que são encontrados em comunidades pobres e violentas e também explicam envolvimento criminal.  Para entender apenas o efeito das interações sociais dos jovens sobre o envolvimento com o crime, os pesquisadores comparam jovens que têm em média o mesmo perfil e vivem em comunidades similares, mas diferem na quantidade de outros jovens envolvidos com crime que vivem ao se redor. Impossível encontrar tal situação? A Dinamarca gerou tal cenário ao criar uma política de alocação de refugiados onde o governo decide onde os refugiados vão morar e que é o objeto de estudo do autores. Assim, é possível avaliar qual a influência do nível de violência do local de destino sobre o  envolvimento criminal dos refugiados.  A qualidade da pesquisa é reforçada por uma base de dados detalhada, que informa o local de residência, envolvimento com o crime (acusações e condenações), nível de escolaridade e outras características demográficas de toda a população dinamarquesa.

Os autores apresentam uma série de evidências que reforçam o argumento de que a interação social é o fator principal que explica os resultados encontrados. Primeiro, os jovens têm maior propensão a se envolver com crimes quando moram em locais que têm um maior número de condenados e não em locais que sofrem com grande número de crimes. Segundo, a presença de jovens condenados só afeta o envolvimento com o crimes dos homens, não havendo qualquer efeito sobre as mulheres. Terceiro, jovens são especialmente afetados pela presença de criminosos quando têm entre 10 e 14 anos. Por fim, os autores buscam entender como a convivência com criminosos afeta a trajetória dos refugiados e encontra que aqueles alocados em áreas com maior taxa de jovens condenados têm maior chance de não estar estudando ou trabalhando aos 25 anos de idade.

Por que um estudo sobre a Dinamarca interessa aos brasileiros? Porque as interações sociais que permitem que o ambiente em que os jovens crescem influenciem seu comportamento não deve diferir muito entre diferentes populações.  Assim, a extrapolação desse estudo para o caso do Rio de Janeiro sugere que a presença de traficantes nas comunidades carentes tem influência direta sobre a trajetória dos jovens moradores desses locais.