O Governo Brasileiro Gasta Pouco em Saúde?

Sempre que os problemas da saúde emergem no debate público, uma proposta recorrente é o aumento do nível de gastos. Mas será que o governo brasileiro gasta pouco em saúde?

Um exercício simples de comparação internacional indica que o nível do gasto público em saúde do Brasil é compatível com o de países com renda similar. Esta conclusão é ilustrada no Gráfico 1, que contrapõe o gasto público em saúde per capita com o PIB per capita dos países da OECD[1] e BRICS[2], e revela que o nosso padrão não difere muito dos demais BRICS ou mesmo de países da OECD com renda um pouco mais próxima a nossa como Chile, México ou Turquia[3].

Gráfico 1: Gasto público em saúde per capita e PIB per capita (US$ PPP) – 2011

Fonte: WB/WDI

Fonte: Banco Mundial, WDI

Só que há uma particularidade que difere o Brasil da maioria dos países de renda similar: o tamanho do nosso governo. O gasto público total, como proporção do PIB, alcançava quase 40% em 2011, nível similar ao do grupo de países mais ricos. Por outro lado, apenas 8,7% do total de gastos era destinado à saúde, nível muito inferior ao apresentado pelo mesmo grupo de países. O Gráfico 2 mostra que o nível do gasto de saúde do Brasil, apesar de razoável para os países de renda similar e governo menor, está muito abaixo da média quando se considera o tamanho do governo brasileiro. Além disso, de 2000 a 2012, a proporção dos gastos públicos destinada a saúde pouco variou, revelando a ausência de um esforço para priorizar mais o setor.

Gráfico 2: Gasto público em saúde  (%PIB) e gasto público total (%PIB) – 2011

Fonte: WB/WDI e IMF

Fonte: WB/WDI e IMF

Um aspecto que contribui para dificultar qualquer conclusão são as ambições do SUS. Assim como um indivíduo pode destinar toda sua renda para adquirir um bem de consumo e ainda assim ficar insatisfeito por não possuir o melhor disponível, o mesmo pode acontecer com um país. Nosso sistema público de saúde garante que todos tem acesso (universalidade), a todos os serviços de saúde (integralidade), de forma gratuita (igualdade). Além de ser difícil encontrar qualquer outro país que se comprometa com mais de um desses princípios, todos os países que lograram atingir só a cobertura universal já são mais ricos e gastam mais em saúde do que o Brasil sob qualquer ótica que se avalie. Portanto, se as nossas ambições estiverem acima da nossa capacidade de financiamento, qualquer nível de gasto sempre parecerá insuficiente.

O que essa simples análise indica, portanto, é que os atuais gastos públicos com saúde no Brasil são adequados ao nível de renda do país, mas pouco relevantes dados o tamanho do governo e o que o SUS se compromete a fazer. O pouco espaço para o crescimento de gastos públicos e a perspectiva de gastos crescentes com saúde que surgem com o envelhecimento populacional indicam que, sem uma revisão das atuais prioridades no gasto governamental, é difícil imaginar que o já débil serviço público de saúde não seja comprometido. Desta forma, o debate sobre como e o que financiar na área de saúde terá que entrar na agenda política. Mas independente do rumo escolhido, sempre que as nossas expectativas estiverem além do alcançável com o nosso nível de renda, qualquer nível de gastos não será suficiente.


[1] Grupo de 34 países, em sua maioria, desenvolvidos.

[2] Grupo de países de renda média que inclui Brasil, Rússia, China, Índia e África do Sul

[3] A conclusão não muda na análise que inclui os 190 países disponíveis da base da Organização Mundial de Saúde.

 

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O Jogo que Perdemos Fora do Campo

Hoje o Brasil acordou verde e amarelo pronto para torcer pela seleção. Mas o uso das cores do país estava tímido até esta semana, como reflexo de um país que está dividido em relação à realização da Copa do mundo em solo nacional.  Segundo a pesquisa do IBOPE divulgada semana passada, quase metade dos brasileiros não apóia a realização da Copa. Nos últimos meses, sobressaíram-se as reclamações sobre gastos excessivos e muitos brasileiros afirmaram que preferiam que os gastos tivessem sido direcionados à saúde ou educação. Mas a realidade é que esses recursos não representam uma parcela significativa do orçamento público brasileiro. Os R$ 8 bilhões gastos em estádios parecem absurdos em termos absolutos, mas são pequenos perto das centenas de bilhões que o governo compromete em políticas questionáveis para benefício de grupos específicos. Entre 2011 e 2013, quando se realizou a maioria dos R$25,8 bilhões gastos na Copa (total que inclui os gastos com mobilidade urbana, portos e aeroportos), o governo federal abriu mão de R$131,7 bilhões em desonerações de impostos. Ou seja, mais de 5 copas foram viabilizadas em gastos invisíveis, com benefícios ainda mais duvidosos mas raramente questionados. Só a indústria automobilística beneficiou-se com R$ 10,6 bilhões nesse período.

Mesmo olhando para o orçamento de saúde, por exemplo, é difícil acreditar que o acréscimo dos recursos da Copa seria suficiente para causar impacto relevante: os gastos totais da Copa sustentariam a saúde por apenas um mês e meio. Não estamos argumentando que os gastos com a Copa devem ser ignorados, mas devidamente ponderados.

O que a Copa ilustra de forma emblemática é a incapacidade de entrega do Estado brasileiro. Assumimos um compromisso em nível internacional de fazer 82 obras de infraestrutura, onde a princípio não havia restrições orçamentárias. O prazo de entrega era crível: ao final de sete anos teríamos metade da população mundial testemunhando o que se passa no Brasil. Mas no dia da abertura da Copa podemos dizer que perdemos o jogo fora do campo. Apenas 45 obras de aeroportos e mobilidade urbana foram entregues, sendo que 15 de forma inacabada. Para citar alguns exemplos, nas últimas semanas o governo inaugurou o aeroporto de Natal, o metrô de Salvador e a Transcarioca, no Rio de Janeiro, sem estarem integralmente concluídos. Isso sem contar as obras de BRT e VLT em Manaus, Fortaleza, Brasília, Cuiabá e Porto Alegre, entre outras que sequer saíram do papel.

O que explica tamanha incapacidade do governo? Essa é a pergunta que a maioria dos brasileiros deveria estar se fazendo agora. Gestores públicos entrevistados pelo site G1 apontam burocracia, imprevistos, disputas judiciais, modificações nos planejamentos iniciais e problemas com empresas contratadas como algumas das razões para o fracasso nas entregas. Isso sugere que faltou planejamento e uma gestão de boa qualidade capaz de enfrentar dificuldades, monitorar prazos e impor sanções para descumprimentos.

No próximo mês, o país inteiro só falará de futebol. Vamos torcer e prestigiar aquilo que fazemos bem: o jogo dentro de campo. Passada a Copa do Mundo, o principal legado do jogo fora de campo – a prova cabal da incapacidade de entrega do Estado brasileiro – deveria nos lembrar que o debate sobre como destravar a máquina pública brasileira precisa estar no centro da agenda do país.

Diga-me com quem andas e eu te direi quem você será

Um jovem que vive em comunidades marcadas pelo crime tem mais chances de se tornar um criminoso? Para muita gente que observa todos os anos jovens sendo aliciados pelo tráfico em bairros e favelas violentas espalhados pelo Brasil, a resposta a essa pergunta é óbvia. Mas a primeira evidência contundente sobre a existência de uma relação de causa e efeito entre interações sociais e envolvimento criminal foi recentemente estimada pelos pesquisadores Anna Damm e Christian Dustmann. No estudo “Does Growing Up in a High Crime Neighborhood Affect Youth Behavior?”, que acaba de sair na American Economic Review, eles estimam que jovens têm mais chances de cometer crimes quando moram em locais com elevado número de pessoas condenadas pela Justiça. Mais precisamente, o aumento de 1% na taxa de pessoas condenadas em uma localidade eleva a probabilidade de um indivíduo que mora nesse local ser condenado por ter cometido um crime entre 7% e 11%.

Cena do filme Cidade de Deus, 2002.

Cena do filme Cidade de Deus, 2002.

A grande contribuição desse estudo é desassociar a influência de interações sociais de fatores como pobreza, famílias desestruturadas, um sistema educacional deficiente, que são encontrados em comunidades pobres e violentas e também explicam envolvimento criminal.  Para entender apenas o efeito das interações sociais dos jovens sobre o envolvimento com o crime, os pesquisadores comparam jovens que têm em média o mesmo perfil e vivem em comunidades similares, mas diferem na quantidade de outros jovens envolvidos com crime que vivem ao se redor. Impossível encontrar tal situação? A Dinamarca gerou tal cenário ao criar uma política de alocação de refugiados onde o governo decide onde os refugiados vão morar e que é o objeto de estudo do autores. Assim, é possível avaliar qual a influência do nível de violência do local de destino sobre o  envolvimento criminal dos refugiados.  A qualidade da pesquisa é reforçada por uma base de dados detalhada, que informa o local de residência, envolvimento com o crime (acusações e condenações), nível de escolaridade e outras características demográficas de toda a população dinamarquesa.

Os autores apresentam uma série de evidências que reforçam o argumento de que a interação social é o fator principal que explica os resultados encontrados. Primeiro, os jovens têm maior propensão a se envolver com crimes quando moram em locais que têm um maior número de condenados e não em locais que sofrem com grande número de crimes. Segundo, a presença de jovens condenados só afeta o envolvimento com o crimes dos homens, não havendo qualquer efeito sobre as mulheres. Terceiro, jovens são especialmente afetados pela presença de criminosos quando têm entre 10 e 14 anos. Por fim, os autores buscam entender como a convivência com criminosos afeta a trajetória dos refugiados e encontra que aqueles alocados em áreas com maior taxa de jovens condenados têm maior chance de não estar estudando ou trabalhando aos 25 anos de idade.

Por que um estudo sobre a Dinamarca interessa aos brasileiros? Porque as interações sociais que permitem que o ambiente em que os jovens crescem influenciem seu comportamento não deve diferir muito entre diferentes populações.  Assim, a extrapolação desse estudo para o caso do Rio de Janeiro sugere que a presença de traficantes nas comunidades carentes tem influência direta sobre a trajetória dos jovens moradores desses locais.

 

Os Embaixadores do Narcosul

Essa semana o jornal Extra do Rio de Janeiro publicou uma série de reportagens sobre as redes de narcotráfico no Brasil, intitulada “Os Embaixadores do Narcosul: os traficantes que operam o maior bloco de drogas do mundo”, que se baseia em seis meses de investigação jornalística.

A primeira reportagem da série afirma que os traficantes da Bolívia, Brasil, Paraguai e Peru constituíram, nos últimos 14 anos, a mais poderosa e coesa aliança para a exportação de drogas no mundo, capaz de movimentar R$ 21 bilhões por ano e empregar 30 mil pessoas. O link mostra detalhes de como o jornal chegou às estimativas de movimentação financeira.

Cada país tem um papel central no chamado Narcosul. Peru e Bolívia são os dois maiores produtores mundiais de cocaína, pasta base e outros derivados da folha de coca. O Paraguai lidera o cultivo de maconha na região. O Brasil é ao mesmo tempo o segundo no ranking mundial de consumo de cocaína e derivados e o principal entreposto para a Europa e a África. Mas, segundo o Extra, todos eles compartilham os três elementos essenciais que permitem a operação da rede de drogas:corrupção de agentes públicos, a ausência do Estado nas fronteiras e a falta de cooperação efetiva entre os sistemas judiciais.

Figura 1 – As Rotas do Narcosul

A série de reportagens mostra um ponto muito interessante. Pelo menos três dos sete traficantes apontados como os embaixadores do crime na América do Sul exercem esse poder apesar de estarem presos. O traficante Pavão, preso na capital do Paraguai, opera sua rede de tráfico através de sua cela, que mais parece um gabinete equipado com computadores e televisão. Marcola, o, atual chefe do Primeiro Comando da Capital (PCC), controla de dentro do presídio paulista de Presidente Prudente a única facção brasileira que tem atuação nacional e atividades em expansão nos países vizinhos.

O estudo “A Hole at the Center of the State: Prison Gangs and the Limits of Punitive Power”, de Benjamim Lessing, professor da Universidade de Chicago, mostra que esse excesso de poderes dentro das prisões não é um fenômeno único do Brasil e do Paraguai.  Há exemplos de facções organizadas de dentro de prisões e que comandam redes criminosas também nos Estados Unidos e na América Central. Lessing defende que o fortalecimento dessas facções que operam nas prisões ocorreu em conjunto com o aumento da população prisional desses países e apresenta um argumento para essa correlação: o aumento da probabilidade de ser preso torna mais importante para um criminoso se associar a uma facção, dado que as facções costumam oferecer proteção dentro das prisões.

A tese de Lessing e o exemplo de Marcola e Pavão mostram que combater o tráfico deixou de ser apenas uma questão de prender traficantes. Enquanto prisão não significar a incapacitação desses criminosos, não há como esperar que a polícia reduza o poder do tráfico.

Reportagens relacionadas:

Ainda sobre a redução da violência em São Paulo

No meu último post, escrevi sobre a influência da demografia na redução da violência em São Paulo. Entretanto, a demografia não foi a única coisa que mudou em São Paulo nos últimos 20 anos, nem é o único fator apontado por especialistas como causas da redução da violência no estado. Também contribuíram: a redução de fatores de risco e as melhoras na gestão da polícia.

Dentre as medidas para reduzir fatores de risco, destacam-se:

A campanha do desarmamento. São Paulo implementou pioneiramente uma campanha do desarmamento em 1997, exigindo recadastramento de armas, aumentando o rigor na concessão de novas licenças e aumentando a apreensão de armas. Além disso, o estado foi destaque na campanha nacional de desarmamento iniciada em 2004, após a aprovação do estatuto do desarmamento. O estudo “Menos Armas, Menos Crimes” de Daniel Cerqueira e João De Mello estima que para cada 1% de redução nas armas em circulação no estado de São Paulo devido ao estatuto do desarmamento, houve uma redução média de 2% na taxa de homicídios.

Lei Seca. Entre 2001 e 2004, vigorou em 16 municípios da região metropolitana de São Paulo uma Lei Seca que determinava o fechamento de bares entre 11 da noite e 6 da manhã, com o objetivo de limitar a venda e consumo de álcool. O estudo “Dry Laws and Homicides: evidence from the São Paulo Metropolitan Area” de Ciro Biderman, João De Mello e Alexandre Schneider estima que a Lei Seca contribuiu para uma queda de 10% dos homicídios na região metropolitana de São Paulo.

O estado também liderou inúmeras inovações na área de segurança pública. Tulio Kahn lista inúmeras medidas que o estado implementou no livro “É Possível. Gestão de Segurança Pública e Redução da Violência em São Paulo”, organizado por Fernando Veloso e Sérgio Ferreira.  Dentre as medidas que ele descreve, destacam-se as inovações tecnológicas e gerenciais. As primeiras são no sentido de aumentar a qualidade da informação que polícia possui sobre crimes e criminosos. Neste grupo, Tulio ressalta a criação de três ferramentas:

  • O Copom-online, que é um sistema que permite disponibilizar em tempo real informações sobre a dinâmica da criminalidade em mapas, permitindo que os comandantes realoquem policiais de acordo com as demandas do momento.
  • O Infocrim, que centraliza dados sobre crime e permite a identificação geográfica de manchas criminais, por tipo de crime, dia e hora.
  • O Fotocrim, um cadastro de mais de 300 mil criminosos procurados, cumprindo pena ou presos em flagrante, permitindo a identificação fotográfica, modus operandi e região de atuação dos suspeitos de crimes e facções criminosas.

Tulio Kahn lista muitas outras medidas em seu blog, mas acredita que essas ferramentas não teriam sido bem utilizadas se não tivesse havido o segundo conjunto central de inovações, que envolvem a gestão da polícia. Nesse grupo, inclui-se a adoção de critérios técnicos e padronizados nas operações policiais; e a organização de reuniões periódicas nas quais os principais gestores da polícia se reúnem para verificar as grandes tendências de criminalidade em cada região do estado. Em certa medida, essas reformas seguem o modelo do Compstat, implementado pioneiramente em Nova Iorque, e que busca uma gestão por resultados, que se baseia fortemente em informações e dados para orientar a ação da polícia.

Com tantas mudanças implementadas ao mesmo tempo, é muito difícil identificar a contribuição de cada uma delas na redução da violência em São Paulo. Mas o número de inovações listadas acima no mínimo sugere que a polícia não ficou parada observando a queda da violência no estado. De todo modo, a experiência de São Paulo exemplifica a mensagem do livro do Fernando Veloso e do Sergio Guimarães: é possível reduzir a violência usando de forma mais eficiente os recursos existentes.

O que explica a redução da violência em São Paulo?

O estado de São Paulo teve uma melhora expressiva nos seus indicadores de segurança nos últimos 15 anos. O Gráfico 1 mostra a evolução da taxa de homicídios do estado. Em 2011, a taxa de homicídios foi de 14 homicídios por 100 mil habitantes, um terço do valor de 1999, que foi o mais alto registrado nos últimos 20 anos. O que explica tamanho sucesso na redução de violência em São Paulo? Inúmeros estudos buscam responder a essa pergunta e de forma geral apontam para dois conjuntos de fatores: mudanças na estrutura demográfica e a combinação de uma série de políticas públicas na área de segurança.

Gráfico 1 – Evolução da Taxa de Homicídios – Brasil e São Paulo

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 Fonte: Datasus, Censo Demográfico e contagem populacional.

A queda na proporção da população jovem é apontada como fator que mais contribuiu para a queda na taxa de homicídios em São Paulo de acordo com o estudo “Mudança Demográfica e a Dinâmica dos Homicídios no Estado de São Paulo“, do João Manoel de Mello e Alexandre Schneider. O ponto central dos autores é que a queda de homicídios no estado de São Paulo acompanha a redução na proporção da população jovem (entre 15 e 24 anos) no estado. O Gráfico 2 mostra como a taxa de homicídios em São Paulo e a proporção da população jovem seguem trajetórias muito similares.

O tamanho da população jovem é tão importante para explicar violência porque essa parcela da população é a que mais comete crimes e é a mais vítima de violência. Dados de 2003 indicam que 45% dos crimes em São Paulo foram cometidos por pessoas dessa faixa etária, enquanto 40% das vítimas de homicídio entre 1996 e 2001 tinham entre 15 e 24 anos.

 Gráfico 2 – Evolução da taxa de homicídios e a demografia em São Paulo

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 Fonte: Datasus, Censo Demográfico e contagem populacional. Dados populacionais de 2001 a 2007 calculados por interpolação dos dados do Censo de 2000 e da contagem populacional de 2007.

A evidência de que a demografia contribuiu muito para a redução de violência em São Paulo não implica necessariamente que ela tenha a mesma importância nas outras regiões do Brasil. De fato, há exemplos, como a Bahia, onde as trajetórias dessas duas variáveis divergem completamente. O Gráfico 3 mostra que a Bahia tem apresentado taxas crescentes de homicídios a despeito da estrutura demográfica ter sido propícia para a redução de homicídios nos anos mais recentes. Mas uma análise sistemática de dados para todos os estados do país feita por um segundo estudo de João de Mello, “Reassessing the Demography Hypothesis: the Great Brazilian Crime Shift”,  revela que o caso de São Paulo é mais representativo do que vem ocorrendo no Brasil. De acordo com o estudo, existe uma relação média bastante expressiva entre demografia e violência e mudanças no tamanho da população jovem são capazes de explicar 60% da variação de taxas de homicídios no Brasil.

Essa análise sugere que a demografia abre janelas de oportunidades para aumento e redução da violência, mas o aproveitamento dessas oportunidades depende do que é feito na área de segurança pública no nível estadual. São Paulo aproveitou essa oportunidade e implementou uma série de inovações na área de segurança pública, conforme vou contar no próximo post. Cabe ao restante do país aproveitar a janela de oportunidade que se abre com a redução da população jovem para reduzir a criminalidade e violência do país.

Gráfico 3 – Evolução da taxa de homicídios e a demografia na Bahia

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Fonte: Datasus, Censo Demográfico e contagem populacional. Dados populacionais de 2001 a 2006 calculados por interpolação dos dados do Censo de 2000 e da contagem populacional de 2007.

Reversão dos Indicadores de Segurança do Rio de Janeiro

O Instituto de Segurança Pública do Rio de Janeiro divulgou semana passada os dados de crime e violência referentes ao primeiro trimestre de 2014. O cenário é bastante preocupante: saímos de uma conjuntura onde estávamos diminuindo continuamente a violência para uma em que ela está aumentando, especialmente fora da capital.

O Gráfico 1 mostra a evolução da taxa de homicídios por 100 mil habitantes. A taxa aumentou em 24% na região metropolitana (sem a capital) e 49% nos outros municípios do estado entre o primeiro trimestre de 2013 e 2014. O aumento da violência no interior do estado ocorreu, sobretudo, na região do Norte Fluminense. Campos do Goytacazes, Macaé, Cabo Frio, Rio das Ostras e São João da Barra tiveram mais de 50% de aumento no número de homicídios e respondem juntos por dois terços do aumento de homicídios ocorrido no interior do estado. Na região Metropolitana, Nova Iguaçu, São João de Meriti, Nilópolis e Queimados também tiveram aumentos expressivos, todos de mais de 50%, e responderam por 75% do aumento de homicídios da região metropolitana.

O Gráfico 1 mostra ainda que a trajetória de aumento da taxa de homicídios na região metropolitana e no restante do estado começou em 2012 e fez com que essas regiões voltassem a ter índices de violência semelhantes aos do ano de 2007. Por sua vez, na capital do estado a taxa de homicídios ainda é 45% menor do que era em 2007, a despeito das variações recentes.

Gráfico 1- Evolução da taxa de homicídios

Fonte: Instituto de Segurança Pública do Rio de Janeiro

Fonte: Elaboração Própria com dados do Instituto de Segurança Pública do Rio de Janeiro

O Gráfico 2 mostra que houve também um forte aumento na criminalidade a partir de 2013, medida pelo número de registros de crimes ao patrimônio[1], principalmente na região metropolitana e na capital. No caso da capital, a taxa de crimes ao patrimônio no primeiro trimestre de 2014 foi de 395 registros por 100 mil habitantes, que equivale a 25.411 ocorrências de roubos e furtos em três meses. Esse valor é equivalente ao que foi registrado em meados de 2009 e indica que todos os ganhos obtidos desde então foram revertidos. No caso da região metropolitana, a situação é ainda mais grave. A taxa de crimes ao patrimônio começou a subir mais fortemente em 2012 e hoje é 67% maior do que era em 2007.

Gráfico 2 – Evolução da taxa de crimes ao patrimônio

Fonte: Elaboração Própria com dados do Instituto de Segurança Pública do Rio de Janeiro

Fonte: Elaboração Própria com dados do Instituto de Segurança Pública do Rio de Janeiro

A análise dos dados por município revela que não se trata de uma onda de violência em municípios específicos, visto que os municípios que mais tiveram aumento de homicídios não são os mesmos que tiveram os maiores aumentos de crimes ao patrimônio, conforme mostra o Gráfico 3.

Muitas pessoas vão ler esses números e concluir que eles indicam que a política de pacificação do Rio de Janeiro fracassou. Mas não é claro que parcela desse aumento pode ser atribuído ao combate às facções de drogas nas favelas cariocas. Outros fatores como o policiamento ostensivo são muito importantes para explicar variações de crimes ao patrimônio, mas infelizmente não existem estatísticas oficiais que permitam entender sua influência. A notícia recente de que o efetivo policial extra previsto para a Copa será colocado imediatamente nas ruas sugere que a Secretaria de Segurança Pública tem o diagnóstico de que o policiamento ostensivo precisa de reforço. De qualquer forma, os números aqui apresentados indicam que a melhora na Segurança Pública no Rio de Janeiro ocorrida nos últimos anos está ameaçada.

Gráfico 3 – Relação entre crescimento na taxa de crimes ao patrimônio e crescimento na taxa de homicídios

Fonte: Elaboração Própria com dados do Instituto de Segurança Pública. Nota: Cada ponto indica um município do estado. Para facilitar a visualização, omitiu-se do gráfico os três municípios com maior variação de homicídios (São João da Barra, Cachoeiras de Macacu e Nilópolis) e com as maiores variações na taxa de crimes ao patrimônio (São Sebastião do Alto e Carmo).

Fonte: Elaboração Própria com dados do Instituto de Segurança Pública. Nota: Cada ponto indica um município do estado. Para facilitar a visualização, omitiu-se do gráfico os três municípios com maior variação de homicídios (São João da Barra, Cachoeiras de Macacu e Nilópolis) e com as maiores variações na taxa de crimes ao patrimônio (São Sebastião do Alto e Carmo).


[1]Crimes ao patrimônio incluem roubos ao comércio, residência, veículo, carga, transeunte, banco, caixa eletrônico, roubo em coletivo, roubo com condução a saque, furto de veículos, sequestro, extorsão, sequestro relâmpago e estelionato.