A dificuldade de acesso à saúde

Que a saúde pública vai mal e que a insatisfação com o setor é elevada já é sabido. Mas aonde e até que ponto o Sistema Único de Saúde (SUS) deixa a desejar?

Quando se olha para evolução dos indicadores de produção do SUS, nota-se o uso crescente dos serviços públicos de saúde. Entre 1998 e 2013, o número de consultas em atenção básica, por exemplo, subiu de 0,05 para 0,66 consultas por habitante[1]. No mesmo período, o número de procedimentos de média e alta complexidade saiu de dois procedimentos por habitante, em 1998, para dez procedimentos per capita, em 2013. Enquanto esses números certamente refletem um avanço na capacidade do sistema, eles não fornecem um retrato adequado do acesso aos serviços de saúde. Isso acontece pois indicadores de uso revelam a demanda que foi atendida, mas, em geral, não trazem informações sobre a demanda não atendida, ou sobre a demanda não observada — aqueles que não buscaram atendimento, mesmo precisando dele. Uma medida apropriada de acesso deveria considerar todas as dimensões acima, que somadas correspondem a demanda total por serviços de saúde em cada momento do tempo.

Naturalmente, a dificuldade em identificar a demanda não observada impossibilita a mensuração regular do acesso aos serviços. Entretanto, através dos suplementos de saúde da PNAD, cujo ano mais recente é 2008, é possível ter uma ideia da situação nessa dimensão. Assim, nota-se que, em 2008, 27,5 milhões de brasileiros procuraram os serviços de saúde nos 15 dias anteriores à pesquisa, mas 681 mil pessoas, ou 2% dos que procuraram, não foram atendidos. Além disso, 5,9 milhões declararam não ter procurado serviços de saúde por motivos como falta de dinheiro, distância do local de atendimento, horário incompatível, demora no atendimento, ou falta de especialista no estabelecimento de saúde. Assim, a soma dos dois conjuntos indica que um total de 6,6 milhões de pessoas ou 20% dos brasileiros que necessitaram de serviços de saúde não foram atendidos.[2]

Esses números não distinguem entre setor público, privado, SUS ou não SUS. Tentando obter uma medida mais específica do déficit de acesso no SUS, excluímos do total as pessoas que afirmam ter algum plano de saúde e assumimos que os demais são os dependentes do sistema público. Considerando as 23,5 milhões de pessoas que necessitaram de serviços de saúde nos últimos 15 dias e não tem plano de saúde, 6 milhões ou 25% dessa população declarou não ter tido atendimento de saúde. Já entre os 9,9 milhões que necessitaram de atendimento e tem plano de saúde, apenas 6% não foram atendidos. Este forte contraste está ilustrado na Figura 1.

Figura 1: População que precisou de serviços de saúde, mas não teve acesso – por posse ou não de plano de saúde

Fonte: PNAD/2008.

Fonte: PNAD/2008.

A análise de acesso a pessoas que necessitam do SUS por faixas de renda revela mais um contraste.  A Figura 2 mostra que entre os 10% mais pobres, 37% não teve acesso ao sistema quando necessitou, enquanto o mesmo percentual é de 13% entre os 10% mais ricos.

Figura 2: Percentual da população que precisou dos serviços de saúde do SUS, mas não teve acesso – por decil de renda

Fonte: PNAD/2008.

Fonte: PNAD/2008.

Os números apresentados também mostram que dentre a população que necessita de serviços de saúde em cada momento do tempo, além de 20% não conseguirem acessar os serviços, outros 28% são atendidos mas tem plano de saúde, o que sugere que apenas em torno de 52% da demanda é atendida pelo SUS, valor baixo para um sistema que se propõe a cobrir 100% dos brasileiros.

Assim, o que as evidências apresentadas revelam é que ainda há uma importante dificuldade de acesso aos serviços de saúde, que atinge principalmente os usuários mais pobres e dependentes do sistema público, comprovando que pelo menos em termos de universalização e igualdade o SUS ainda deixa a desejar.


[1] Todos os dados deste parágrafo estão disponíveis no DATASUS.

[2] Note, entretanto, que esse percentual inclui pessoas que dizem não ter procurado serviços de saúde porque o horário era incompatível ou porque não tinham acompanhante, motivos em que a oferta tem pouca discrição. Mas mesmo excluindo esse grupo de respondentes, observa-se que 5 milhões de brasileiros, ou 17% da população que necessitou de serviços de saúde, não foi atendida. Como “necessidade” define-se a soma daqueles que procuraram os serviços de saúde com os que precisavam mas não procuraram.

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A (in)eficiência e o SUS

Já foi discutido aqui que apesar do gasto público em saúde no Brasil estar de acordo com a nossa renda, tendo em vista parâmetros internacionais, o Brasil parece gastar pouco em relação ao que seria necessário para cumprir os princípios constitucionais. Mas o que se sabe sobre a eficiência do nosso gasto? Nem todos os indicadores usados para avaliar a eficiência na área de saúde estão disponíveis para o Brasil, principalmente em nível nacional. Apesar disso, o trabalho de 2008 de Gerard La Forgia e Bernard Couttolenc – Hospital Performance in Brazil – e o relatório do Banco Mundial de 2013 sobre os 20 anos do SUS reúnem o que há de evidência disponível sobre a eficiência na rede hospitalar e ambulatorial brasileira. A conclusão de ambos é que o sistema de saúde brasileiro sofre de um grau generalizado e elevado de ineficiência. Dentre as evidências apontadas para sustentar essa conclusão estão:

 – A constatação de que o Brasil é um ávido incorporador de tecnologias médicas, muitas vezes adotadas sem uma avaliação de custo-benefício e alocadas em pequenos municípios, que não têm volume nem condições de administrá-las adequadamente. O resultado são razões desproporcionais de aparelhos por habitante, muitas vezes superando mesmo a dos países mais ricos da OCDE.

 – Ao calcular um indicador de eficiência do uso dos recursos em hospitais (DEA), La Forgia e Couttolenc notam que, no Brasil, a eficiência é muito baixa, de apenas 0,34 em uma escala de 0 a 1, o que significa que um hospital médio poderia produzir até três vezes mais se fosse tão eficiente quanto o mais eficiente hospital da amostra. Os índices são um pouco melhores para os hospitais privados (0,39) do que para os hospitais públicos (0,29), mas ambos são bastante baixos. Os autores afirmam que os principais determinantes para essa alta ineficiência seriam a pequena escala de operações, o elevado uso de recursos humanos e a baixa utilização da capacidade instalada e dos recursos técnicos disponíveis.

 – Em relação à escala de operações, os autores chamam a atenção para o fato de que 60% dos hospitais no Brasil são de pequeno porte (menor que 50 leitos), sendo que a evidência internacional sugere que o tamanho eficiente deveria ser entre 150 e 250 leitos. Devido ao tamanho, esses hospitais não têm escala suficiente para serem eficientes.

 – A utilização dos recursos também deixa a desejar. Por exemplo, entre 2005 e 2013, a taxa de ocupação média dos leitos hospitalares se manteve em torno de 50%; isto é, em cada momento do tempo apenas metade dos leitos disponíveis estava sendo utilizada.[1] A média internacional gira em torno de 70-80%. Na realidade, esse valor esconde uma grande heterogeneidade, com hospitais de excelência funcionando a plena capacidade e outros virtualmente parados, o que indica mais uma vez o potencial de melhora dentro do próprio sistema.

– Ainda outra fonte de desperdícios é a falta de padronização das práticas médicas, o que gera variações na resposta a diagnósticos similares e provoca a realização de exames desnecessários, afetando não apenas o controle de custos, mas a qualidade dos atendimentos e o potencial de aprendizado.

O que este retrato parcial sugere é que tanto aumentos de gastos seriam bem-vindos como ganhos de eficiência seriam necessários. Mensurar a contribuição potencial de cada um para o alívio dos gargalos da saúde infelizmente não é possível. Entretanto, uma coisa é possível afirmar: a ineficiência, provocada muitas vezes pela falta de informações, pela distorção de incentivos e por falhas de governança, tende a se perpetuar. E este fato faz com que qualquer melhora pequena que se busque na qualidade ou acesso à saúde exija uma quantidade de recursos muito maior do que a que seria necessária sob condições adequadas. Em um contexto onde o crescimento dos gastos de saúde é uma preocupação mundial, ignorar o elevado desperdício do setor parece uma irracionalidade. Se ainda levarmos em conta as particularidades do Brasil, como o gasto público substancial, o orçamento altamente engessado e as pressões de gasto que já são vislumbradas apenas pelas mudanças esperadas de perfil demográfico e epidemiológico, então podemos concluir que falar de gastos sem falar de eficiência indica que estamos no caminho errado para continuar garantindo a melhora da saúde no Brasil.


[1] Taxas calculadas com base em informações disponíveis no DATASUS.

O Governo Brasileiro Gasta Pouco em Saúde?

Sempre que os problemas da saúde emergem no debate público, uma proposta recorrente é o aumento do nível de gastos. Mas será que o governo brasileiro gasta pouco em saúde?

Um exercício simples de comparação internacional indica que o nível do gasto público em saúde do Brasil é compatível com o de países com renda similar. Esta conclusão é ilustrada no Gráfico 1, que contrapõe o gasto público em saúde per capita com o PIB per capita dos países da OECD[1] e BRICS[2], e revela que o nosso padrão não difere muito dos demais BRICS ou mesmo de países da OECD com renda um pouco mais próxima a nossa como Chile, México ou Turquia[3].

Gráfico 1: Gasto público em saúde per capita e PIB per capita (US$ PPP) – 2011

Fonte: WB/WDI

Fonte: Banco Mundial, WDI

Só que há uma particularidade que difere o Brasil da maioria dos países de renda similar: o tamanho do nosso governo. O gasto público total, como proporção do PIB, alcançava quase 40% em 2011, nível similar ao do grupo de países mais ricos. Por outro lado, apenas 8,7% do total de gastos era destinado à saúde, nível muito inferior ao apresentado pelo mesmo grupo de países. O Gráfico 2 mostra que o nível do gasto de saúde do Brasil, apesar de razoável para os países de renda similar e governo menor, está muito abaixo da média quando se considera o tamanho do governo brasileiro. Além disso, de 2000 a 2012, a proporção dos gastos públicos destinada a saúde pouco variou, revelando a ausência de um esforço para priorizar mais o setor.

Gráfico 2: Gasto público em saúde  (%PIB) e gasto público total (%PIB) – 2011

Fonte: WB/WDI e IMF

Fonte: WB/WDI e IMF

Um aspecto que contribui para dificultar qualquer conclusão são as ambições do SUS. Assim como um indivíduo pode destinar toda sua renda para adquirir um bem de consumo e ainda assim ficar insatisfeito por não possuir o melhor disponível, o mesmo pode acontecer com um país. Nosso sistema público de saúde garante que todos tem acesso (universalidade), a todos os serviços de saúde (integralidade), de forma gratuita (igualdade). Além de ser difícil encontrar qualquer outro país que se comprometa com mais de um desses princípios, todos os países que lograram atingir só a cobertura universal já são mais ricos e gastam mais em saúde do que o Brasil sob qualquer ótica que se avalie. Portanto, se as nossas ambições estiverem acima da nossa capacidade de financiamento, qualquer nível de gasto sempre parecerá insuficiente.

O que essa simples análise indica, portanto, é que os atuais gastos públicos com saúde no Brasil são adequados ao nível de renda do país, mas pouco relevantes dados o tamanho do governo e o que o SUS se compromete a fazer. O pouco espaço para o crescimento de gastos públicos e a perspectiva de gastos crescentes com saúde que surgem com o envelhecimento populacional indicam que, sem uma revisão das atuais prioridades no gasto governamental, é difícil imaginar que o já débil serviço público de saúde não seja comprometido. Desta forma, o debate sobre como e o que financiar na área de saúde terá que entrar na agenda política. Mas independente do rumo escolhido, sempre que as nossas expectativas estiverem além do alcançável com o nosso nível de renda, qualquer nível de gastos não será suficiente.


[1] Grupo de 34 países, em sua maioria, desenvolvidos.

[2] Grupo de países de renda média que inclui Brasil, Rússia, China, Índia e África do Sul

[3] A conclusão não muda na análise que inclui os 190 países disponíveis da base da Organização Mundial de Saúde.

 

Os princípios do SUS: Universalidade, integralidade, gratuidade… o que é isso?

Diversas pesquisas de opinião vêm retratando sistematicamente a preocupação do brasileiro com a saúde do país, o que levanta a questão de por que é tão difícil prover saúde de qualidade no Brasil. Para começar a responder a essa pergunta, é preciso entender quais são as diretrizes do setor no país e quão realistas elas são. A constituição de 1988 deu ao Estado brasileiro a responsabilidade de garantir o acesso universal, integral e gratuito à saúde. Universalidade, integralidade e gratuidade… o que exatamente significa isso?

Antes de mais nada,é importante entender que esses três princípios são conceitos internacionais, não estando associados a nenhum modelo em particular de financiamento ou provisão de saúde. Assim, universalidade, segundo definição da Organização Mundial de Saúde, significa que todos os cidadãos de determinado país tem acesso a serviços de saúde – que podem ser públicos ou privados – sem que, para isso, sofram dificuldades financeiras. Integralidade refere-se à cobertura total das ações de saúde, independente da natureza ou do nível de complexidade dos serviços de saúde. Por fim, gratuidade corresponde à ausência de custos para o usuário no momento de uso, o que não implica que a população seja isenta de contribuir para o financiamento do sistema através de impostos e taxas.

Destes três, universalidade é o princípio mais adotado internacionalmente, tendo se tornado meta das Nações Unidas para todos os países. Apesar de ser uma meta comum, não existe um único modelo para atingi-la. No Brasil, associamos a este objetivo os de integralidade e gratuidade, e, para atingi-los, criou-se um arranjo onde o governo financia integralmente e provém todos os serviços de saúde, que é organizado através do Sistema Único de Saúde, o SUS. Gerou-se, portanto, um modelo onde mesmo que a entrada do setor privado seja permitida de forma complementar, toda a responsabilidade recai sobre o Estado, que deve ser extremamente generoso com sua população.

Na maioria dos países desenvolvidos, as ambições são menos grandiosas: os países nórdicos, França e Portugal, por exemplo, não adotam a gratuidade. Ao invés, fazem uso de co-pagamentos em seus sistemas; isto é, ainda que o setor público continue a financiar a maior parcela do custo de determinado serviço, exige-se que o indivíduo complemente o pagamento no momento de uso, normalmente arcando com um percentual reduzido do custo total. Nestes modelos, a gratuidade às vezes ainda é oferecida para os mais pobres, mas não para toda a população. Na Inglaterra, cujo sistema mais se parece ao do Brasil, esta opção é adotada para serviços dentários, ópticos e alguns medicamentos, onde exige-se o pagamento de uma taxa. Alguns países também excluem do setor público a responsabilidade de financiar alguns serviços para toda a população, cobrindo apenas serviços essenciais, sem maiores danos para a saúde nacional.  Há ainda países que para atingir cobertura universal não contam com financiamento público para todos, como é o caso da Alemanha, onde aproximadamente 11% da população  tem acesso à saúde via cobertura privada.

Mesmo com menor ambição, todos estes países terminam por gastar, per capita, muito mais do que o Brasil. Ou seja, se for possível dizer que a qualidade da saúde nesses países é superior a brasileira, buscá-la, dadas as nossas ambições generosas e orçamento reduzido, exigiria um grau de eficiência invejável, que não se vê na realidade nacional.

O papel do cidadão na provisão pública de serviços

Imagine a seguinte situação: um cidadão insatisfeito com o serviço público de saúde decide acompanhar a falta de médicos em um posto de atendimento de sua vizinhança, denunciando-as pela internet. O que acontece em seguida? Os vizinhos o apoiam, os políticos cobram, os funcionários reagem e o serviço melhora? Infelizmente, não foi isso o que aconteceu em Madureira, onde um cidadão que teve essa atitude em uma Unidade de Pronto Atendimento de saúde (UPA) terminou autuado, acusado de perturbar a ordem em um ambiente de trabalho (Ver reportagem de O Globo de 19.03.14).

O episódio descrito acima não deveria surpreender; afinal, é apenas uma ilustração mais extrema da impotência sentida corriqueiramente por diversos usuários de serviços públicos no Brasil. Esta falha fundamental nos motiva a investigar a seguinte questão: em um modelo de provisão pública, o cidadão está fadado à passividade ou é possível aumentar seu potencial de influenciar a qualidade do serviço prestado?

Para responder a essa pergunta, é importante identificar o que gera a impotência em primeiro lugar. Neste sentido, demos um passo atrás e pensemos na provisão de um serviço de saúde privado, onde falhas desta natureza são menos comumente encontradas:

1- O cidadão escolhe um médico para tratar de um problema de saúde por um custo que está disposto a pagar (diretamente ou via seguro de saúde). 2- O cidadão paga pelo serviço prestado. 3- O médico indica um tratamento para o caso apresentado. 4- O cidadão percebe o efeito do tratamento indicado. 5- Com base nessa experiência, o cidadão faz uma avaliação. Se satisfeito, passa a ter o médico como referência para a prestação do serviço solicitado; se insatisfeito, apresenta uma queixa diretamente a ele ou à administração da clínica utilizada, ou simplesmente não retorna mais ao mesmo médico.

Neste caso, como quase sempre acontece na provisão de serviços privados, há pelo menos duas características complementares que dão poder ao cidadão: a possibilidade de escolha associada ao fato de ser o próprio indivíduo quem paga diretamente pelo serviço. Esta combinação faz com que exista uma ameaça constante ao orçamento do provedor, o que gera incentivos para que este se interesse pela satisfação do cliente e responda de acordo, ou sofra as consequências e abandone o mercado. Em ambos os casos, ganha-se em qualidade.

Na provisão pública tradicional, diferentemente, não há um instrumento capaz de garantir o poder do cidadão. Isso acontece porque a intermediação do Estado costuma estar associada à separação entre o usuário final e o financiamento do serviço. Assim, mesmo quando o cidadão tem a opção de escolher onde ser atendido, esta possibilidade  isoladamente não é suficiente para muni-lo da capacidade de motivar o desempenho dos servidores, que passam a receber o financiamento independente do esforço empreendido. A garantia financeira é também responsável por enfraquecer sua voz, que deixa de representar uma potencial ameaça, não provocando tanto interesse por parte dos servidores. Como consequência, o cidadão perde a motivação em cobrar. O resultado quando os cidadãos deixam de expressar suas preferências e os servidores param de responder é que os serviços deixam de cumprir sua função.

Dessa discussão, pode-se então concluir que a impotência é inerente à provisão pública e que para revertê-la é necessário adotar um modelo de provisão privada? Não necessariamente. Alternativamente, há iniciativas que buscam contornar este problema fortalecendo o poder do cidadão em pelo menos duas frentes. Uma delas busca aperfeiçoar o monitoramento pelo usuário de modo a potencializar seu alcance, garantindo que a informação não se perca antes de atingir um responsável capaz de oferecer ou exigir uma resposta. São iniciativas que dão poder à voz. Um exemplo são estratégias baseadas em pressão social como o monitoramento comunitário, onde um grupo de usuários de determinado serviço local canaliza as impressões mais relevantes e pressiona os responsáveis. Martina Bjorkman e Jakob Svensson (2009) apresentam evidências do uso dessa estratégia em Uganda, onde representantes comunitários interagiram diretamente com servidores responsáveis por prover serviços básicos de saúde para apresentar suas impressões. Eles mostram que o monitoramento comunitário aumentou, em um ano, tanto a qualidade quanto a quantidade do serviço público de saúde local.

Outro exemplo de iniciativa para reforçar o monitoramento são as centrais de atendimento que impedem que a informação se perca, tal qual o serviço 1746 disponibilizado pela Prefeitura do Rio de Janeiro. Através desse serviço, a Prefeitura fornece um número de telefone único que é usado para registrar solicitações diversas dos cariocas. Cada solicitação gera um número de protocolo pelo qual o usuário pode acompanhar uma resposta individualizada.

A segunda frente utilizada para aumentar o poder do cidadão o faz trazendo para dentro da provisão pública características da provisão privada associadas ao maior poder do cliente e da qualidade do serviço, gerando um modelo conhecido como “quase-mercados”. Neste modelo, o setor público continua sendo a fonte do financiamento do serviço, mas o pagamento a cada estabelecimento se torna dependente do número de atendimentos, aproximando-se novamente da vontade dos cidadãos, que ganham o direito de escolher onde ou por quem querem ser atendidos. Como resultado, cria-se uma competição por clientes. A Inglaterra é um dos países com uma das experiências mais abrangentes no uso de quase-mercados, que começaram a ser implementados nos anos noventa tanto na área de saúde quanto de educação, mas variações deste modelo também são experimentadas em vários outros países. As evidências sobre seu impacto sugerem que os efeitos são sensíveis às especificidades do modelo, mas trabalhos mais recentes parecem indicar que, respeitando algumas condições, os quase-mercados podem ser associados ao maior poder do cidadão e à qualidade do serviço.

A discussão sobre cada uma dessas iniciativas, incluindo variações, evidências e condições de sucesso não se encerra neste post. Por agora, o que se pode concluir é que, ainda que a provisão pública tradicional tenda a enfraquecer o poder do cidadão sobre os provedores de serviços, é possível criar condições para retomá-lo sem necessariamente excluir o Estado da função de provedor de serviços.

O Brasil pelos brasileiros: qual é o maior problema do país?

O que o brasileiro identifica como o principal problema do Brasil? No ano passado, milhares de brasileiros foram às ruas manifestar sua insatisfação com… bem, com muita coisa. A falta de foco dos movimentos gerou não apenas críticas, como interpretações diversas de analistas que tentavam extrair a mensagem das ruas. Naquele momento, apelos ao “Padrão Fifa” de saúde e educação foram identificados em diversas demonstrações, junto a outras demandas como reforma política, priorização de gastos, controle de corrupção e da inflação de serviços. Dentre tanto desabafo, qual será a principal prioridade do brasileiro?

Em junho de 2013, mesmo mês das manifestações, a ONG Corporación Latinobarómetro, que realiza anualmente uma extensa pesquisa de opinião pública em diversos países latino-americanos, realizou mais uma edição de sua investigação no Brasil e perguntou aos brasileiros: “na sua opinião, qual é o maior problema do Brasil?”. O informe com os resultados preliminares pode ser encontrado em sua página online. Uma resposta se destaca: 35% dos brasileiros afirmam que o principal problema do Brasil é o sistema de saúde. Segurança pública ou violência vem em segundo, com 17% das referências, seguidas de educação e corrupção, com 10% cada uma. Desemprego fecha a lista dos cinco principais problemas, respondendo por 6% dos casos.

Interpretar pesquisas de percepção, porém, não é uma tarefa trivial. Dado o caráter subjetivo dos dados, qualquer análise precisar considerar, antes de mais nada, que tipo de informação está contido nas opiniões expressas. Por exemplo, quando se pergunta ao cidadão qual o principal problema do Brasil, será que ele responde baseado na conjuntura do momento ou no que considera dificuldades estruturais? Ambiguidades na pergunta podem facilmente gerar conclusões errôneas. Para tentar distinguir prioridades e preferências permanentes de possíveis emoções pontuais, observamos a resposta dos brasileiros a essa mesma pergunta ao longo de 10 anos. O Gráfico 1 ilustra a evolução dos cinco aspectos mais mencionados pela população no período 2004-2013. Três aspectos se destacam na leitura do gráfico.

Gráfico 1: Evolução anual das cinco principais queixas do período 2004-2013

Fonte: Elaboração própria. Dados: Latinobarómetro 2004-2013

Fonte:  Elaboração Própria com dados do Latinobarómetro 2004-2013

Primeiro, ao longo dos anos há uma proporção crescente de menções aos serviços públicos, principalmente saúde, como o principal problema do Brasil. Se somarmos saúde, educação e segurança pública, e compararmos com os problemas econômicos, esses serviços públicos aparecem como prioridade desde 2007. Segundo, esse ganho de importância relativa acompanha a queda da preocupação com o desemprego. Por fim, nos anos em que escândalos de corrupção estiveram muito presentes na mídia, há um aumento considerável de referências a esse aspecto, mas estas caem consideravelmente pouco depois. Essas informações sugerem algumas conclusões:

1)  Quando a população não está preocupada com a economia, ela passa a priorizar os serviços públicos. De fato, se olharmos o gráfico 2, percebemos que a proporção de referências ao desemprego como principal problema do país acompanha a queda da taxa de desemprego.

2) A preocupação com serviços públicos não é temporária e vem aumentando ao longo do tempo. Saúde e segurança aparecem entre os cinco principais problemas em todos os anos do último decênio. Educação também aparece em todos os anos desde 2006. Somadas, as menções a esses serviços saltaram de 25%, em 2004, para 55%, em 2013. Saúde, a mais mencionada, saltou de 7% para 35%, no mesmo período.

3)  Preocupações com a corrupção são expressivas, mas menos do que com serviços. Corrupção também aparece frequentemente na lista dos principais problemas, mas em proporções menores do que os serviços. O período de 2005 a 2007 é a única exceção, com picos pontuais nos anos da ponta, marcados pela evidência na mídia do mensalão. Com a menor incidência de notícias, porém, seu nível cai bruscamente.

Gráfico 2: Preocupação com desemprego e taxa de desemprego

Fonte: Elaboração própria. Dados: Latinobarómetro 2004-2013

Fonte:  Elaboração própria com dados do Latinobarómetro 2004-2013.

A combinação dessas informações sugere, portanto, que se fosse possível criar uma lista de prioridades do brasileiro essa lista seria liderada por problemas macroeconômicos seguidos por serviços públicos. Quando os primeiros estão razoavelmente controlados, a atenção volta-se ao próximo item da lista. Por enquanto, a prioridade são os serviços públicos, principalmente o sistema de saúde.