O Jogo que Perdemos Fora do Campo

Hoje o Brasil acordou verde e amarelo pronto para torcer pela seleção. Mas o uso das cores do país estava tímido até esta semana, como reflexo de um país que está dividido em relação à realização da Copa do mundo em solo nacional.  Segundo a pesquisa do IBOPE divulgada semana passada, quase metade dos brasileiros não apóia a realização da Copa. Nos últimos meses, sobressaíram-se as reclamações sobre gastos excessivos e muitos brasileiros afirmaram que preferiam que os gastos tivessem sido direcionados à saúde ou educação. Mas a realidade é que esses recursos não representam uma parcela significativa do orçamento público brasileiro. Os R$ 8 bilhões gastos em estádios parecem absurdos em termos absolutos, mas são pequenos perto das centenas de bilhões que o governo compromete em políticas questionáveis para benefício de grupos específicos. Entre 2011 e 2013, quando se realizou a maioria dos R$25,8 bilhões gastos na Copa (total que inclui os gastos com mobilidade urbana, portos e aeroportos), o governo federal abriu mão de R$131,7 bilhões em desonerações de impostos. Ou seja, mais de 5 copas foram viabilizadas em gastos invisíveis, com benefícios ainda mais duvidosos mas raramente questionados. Só a indústria automobilística beneficiou-se com R$ 10,6 bilhões nesse período.

Mesmo olhando para o orçamento de saúde, por exemplo, é difícil acreditar que o acréscimo dos recursos da Copa seria suficiente para causar impacto relevante: os gastos totais da Copa sustentariam a saúde por apenas um mês e meio. Não estamos argumentando que os gastos com a Copa devem ser ignorados, mas devidamente ponderados.

O que a Copa ilustra de forma emblemática é a incapacidade de entrega do Estado brasileiro. Assumimos um compromisso em nível internacional de fazer 82 obras de infraestrutura, onde a princípio não havia restrições orçamentárias. O prazo de entrega era crível: ao final de sete anos teríamos metade da população mundial testemunhando o que se passa no Brasil. Mas no dia da abertura da Copa podemos dizer que perdemos o jogo fora do campo. Apenas 45 obras de aeroportos e mobilidade urbana foram entregues, sendo que 15 de forma inacabada. Para citar alguns exemplos, nas últimas semanas o governo inaugurou o aeroporto de Natal, o metrô de Salvador e a Transcarioca, no Rio de Janeiro, sem estarem integralmente concluídos. Isso sem contar as obras de BRT e VLT em Manaus, Fortaleza, Brasília, Cuiabá e Porto Alegre, entre outras que sequer saíram do papel.

O que explica tamanha incapacidade do governo? Essa é a pergunta que a maioria dos brasileiros deveria estar se fazendo agora. Gestores públicos entrevistados pelo site G1 apontam burocracia, imprevistos, disputas judiciais, modificações nos planejamentos iniciais e problemas com empresas contratadas como algumas das razões para o fracasso nas entregas. Isso sugere que faltou planejamento e uma gestão de boa qualidade capaz de enfrentar dificuldades, monitorar prazos e impor sanções para descumprimentos.

No próximo mês, o país inteiro só falará de futebol. Vamos torcer e prestigiar aquilo que fazemos bem: o jogo dentro de campo. Passada a Copa do Mundo, o principal legado do jogo fora de campo – a prova cabal da incapacidade de entrega do Estado brasileiro – deveria nos lembrar que o debate sobre como destravar a máquina pública brasileira precisa estar no centro da agenda do país.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s