Mapeando os homicídios no Rio de Janeiro

O ano de 2015 conseguiu trazer uma boa notícia para o Rio de Janeiro: menos pessoas foram mortas no estado. Um estado que perde 5000 vidas por ano ou 15 por dia de forma violenta está longe de poder acenar para níveis de segurança satisfatórios, mas não se pode deixar de destacar que os números registrados em 2015 indicam que 3000 pessoas a menos morreram no ano se compararmos com os níveis de dez anos atrás.

Entender os fatores que contribuem para a redução de homicídios é um dos pontos mais importantes na análise de segurança pública, visto que a preservação da vida humana deve ser o objetivo primordial das políticas de segurança. Na busca por entender a dimensão e complexidade do problema, o primeiro passo é contabilizar corretamente o número de vidas perdidas, algo que o estado do Rio de Janeiro reconhecidamente realiza através da Polícia Civil, do Instituto de Segurança Pública e da Secretaria de Estado de Saúde e Defesa Civil. O segundo passo é entender quem são as vítimas e onde e quando elas morrem. Com esse objetivo, o Instituto de Segurança Pública passou a disponibilizar no seu sítio uma ferramenta de consulta interativa com essas informações sobre todas as vítimas de letalidade violenta que morreram no estado do Rio de Janeiro em 2014 e 2015 (https://public.tableau.com/views/LV2014-20153/Resumo?:embed=y&:display_count=yes&:showTabs=y). Essa análise permite identificar que os homicídios dolosos (quando há intenção de matar) representaram 84% das mortes violentas no estado em 2015, enquanto os homicídios decorrentes de oposição à intervenção policial, 13% dos casos. A maioria das vítimas são pardas, jovens, homens e morrem sobretudo à noite e nos finais de semana, nos bairros mais pobres da Região Metropolitana. É possível constatar ainda que 71% das vítimas são vitimadas por arma de fogo. O interessante da interatividade da ferramenta é poder cruzar essas informações e analisar o padrão por cada área de batalhão ou delegacia.

A ferramenta conta ainda com uma informação bastante preciosa para a análise criminal: a identificação do local específico onde a vítima morreu. Essa informação é crucial, visto que o crime é muito concentrado no espaço. No caso da letalidade violenta, podemos identificar com base nessa informação que todas as pessoas que morreram no estado do Rio de Janeiro em 2015 foram vitimadas em 9% do espaço urbano, o que demonstra o potencial em se ter uma política de prevenção focada nas áreas de alta incidência.[1]

A disponibilização dessas informações coloca o Rio de Janeiro numa posição de liderança na promoção da transparência. Mas, para se continuar reduzindo o número de vidas que são perdidas no Rio de Janeiro todo ano, há ainda muito que precisa ser feito. O fato é que ainda conhecemos muito pouco os fatores que levam a reduções e aumentos nas taxas de homicídios. Existem muitos diagnósticos que buscam levantar fatores associados à letalidade violenta, sejam eles a presença de grupos criminosos armados, o comércio de drogas, a disponibilidade de armas de fogo e o acúmulo de vulnerabilidades sociais. Entretanto, muitos desses fatores sofrem poucas variações entre os anos e não conseguem explicar as variações expressivas que o estado registrou na taxa de homicídios nos últimos cinco anos.

A política de pacificação do Rio de Janeiro é muito citada como política de sucesso de reduções de letalidade e a única que comprovadamente teve sua eficácia verificada. Três pesquisas distintas conduzidas em centros de pesquisa de alto prestígio demonstram o sucesso da política em reduzir o número de mortes violentas nas áreas pacificadas e em seu entorno.[2] Entretanto, há outras iniciativas que foram empreendidas no estado que ainda são pouco estudadas, como a criação do Sistema Integrado de Metas e das delegacias especializadas da Polícia Civil para investigação de homicídios. Há várias evidências sugestivas que indicam que essas políticas foram muito importantes para impor maior eficiência ao trabalho policial, mas tipicamente poucas pesquisas são dedicadas a entender como o trabalho das polícias altera a dinâmica de homicídios. A ausência dessa informação põe em risco a sustentabilidade de iniciativas exitosas, que, ao não serem documentadas, correm um grande risco de serem extintas com mudanças de governo. Espera-se que a disponibilização de informação ajude a aumentar o interesse pelo tema e que, com isso, possa-se evitar a morte de mais pessoas.

 

[1] Estimativa baseada no georeferenciamento dos registros de homicídios e na divisão do estado em 9.941 células de 300 x 300 m em que há ocupação urbana. Do total de 9.941 células, apenas 884 registraram casos de homicídio.

[2] Cano, I. (Brasil) (Org.). Os Donos do Morro: uma avaliação exploratória do impacto das Unidades de Polícia de Pacificação (UPPs) no Rio de Janeiro. Maio, 2012. Disponível em:<http://www.lav.uerj.br/docs/rel/2012/RelatUPP.pdf&gt;.

Magaloni, B.; Melo, V.; Fraco, E. Killing in the Slums: An Impact Evaluation of Police Reform in Rio de Janeiro. CDDRL Working Papers, page(s): 53, December 2015.

Ferraz, C.; Monteiro, J.; Ottoni, B. State Presence and Urban Violence: Evidence from Rio de Janeiro. March, 2016.

 

 

Artigos interessantes sobre inclusão social, educação e segurança pública

O debate raso que caracterizou a campanha eleitoral até agora talvez tenha estimulado vários estudiosos a se manifestarem e escreverem sobre inclusão social, educação e segurança pública no Brasil, assim como trouxe de volta à circulação antigos textos que discutem esses temas de forma exemplar:

Republicação do perfil do Ricardo Paes e Barros feito pela revista Piauí. Leitura obrigatória para quem se interessa por pobreza e desigualdade de renda no Brasil.

Entrevista com Renato Meirelles, fundador do Data Popular, que fala sobre as expectativas da classe C.

Excelente entrevista com Marcelo Neri concedida ao Fernando Dantas em 2010, em que ele defende mudanças no Bolsa-Família, o fim dos aumentos reais do salário mínimo, microcrédito e microsseguro para os que deixam a pobreza.

O que a PNAD indica sobre a evolução recente da desigualdade de renda no Brasil, por João Pedro Azevedo, Marcos Lisboa e Sergio Firpo.

A ausência do debate sobre educação na campanha presidencial, por Antonio Goes.

O que deu certo nas UPPs, por José Mariano Beltrame.

Um outro olhar sobre as UPPs, por Fabiano Leal.

Os eleitores sabem escolher seus governantes?

Estamos vivenciando uma das eleições presidenciais mais competitivas da história brasileira. Como os dois partidos que estão na disputa já governaram o país nos últimos 20 anos, o debate político se concentra na discussão sobre quem foi o partido que melhor governou o Brasil. Isso é natural. A atuação dos governos passados fornece informações relevantes sobre o desempenho potencial em um futuro mandato.

A dificuldade é que as decisões em cada momento do tempo dependem das restrições impostas naquela conjuntura. Os defensores do atual governo dizem que o baixo crescimento é culpa da crise internacional, enquanto os críticos defendem que não há crise no momento e que o bom desempenho da economia brasileira os anos 2000 foi resultado de uma conjuntura internacional espetacular. Como saber então que o governo escolheu as melhores políticas dentro das possíveis? Isso requer a análise de um contrafactual, ou seja, entender o que teria acontecido na ausência das políticas executadas, o que na prática significa comparar o desempenho do Brasil com um grupo de comparação. Mas pensar no contrafactual é um exercício hipotético, e analisar um grupo de comparação é algo que muitas graduações em economia não ensinam. Por que esperar então que os eleitores façam essa avaliação?urna-eletronica-mao

A literatura em economia política é recheada de evidências de que os eleitores não discernem entre competência e sorte/azar e por isso premiam ou punem nas urnas governantes por fatores que estão além do seu alcance. No Brasil, eu e Claudio Ferraz analisamos os impactos políticos de um caso onde um grupo de governantes foi subitamente abatido por uma grande sorte. A partir de 1998, cerca de 60 municípios produtores de petróleo começaram a experimentar aumentos expressivos de orçamento, devido ao recebimento de royalties de petróleo. No estudo “Learning to Select: Resource Windfalls and Political Accountability in Brazil” olhamos o que aconteceu na eleição seguinte, em 2000, e observamos que os eleitores desses municípios reelegeram seus prefeitos com muito mais frequência do que os municípios vizinhos. Infelizmente, não temos dados que nos permitam dizer o que os prefeitos fizeram com esses recursos no curto-prazo, se compraram votos ou investiram em algo que agradou os eleitores, nós só sabemos que eles foram premiados pelo fato do município ser beneficiado com algo que não dependeu da sua competência ou esforço.

Isso quer dizer que os eleitores são irracionais ou burros? Não. Tudo indica que os eleitores estão fazendo sua avaliação com base na informação que tem ao seu alcance. A análise após dez anos de bonança de petróleo mostra que os eleitores aprendem a escolher seus governantes. A despeito das receitas de petróleo terem aumentado continuamente ao longo dos anos 2000, na média, os municípios beneficiados com royalties não apresentaram melhora nos padrões de vida superior aos dos municípios vizinhos no acesso à educação, saúde, água encanada, eletricidade, esgoto e coleta de lixo.[1] A boa notícia é que os eleitores entenderam isso e pararam de reeleger seus prefeitos. Isso foi especialmente verdade em municípios onde a população é mais educada e tem mais acesso a meios de comunicação. A capacidade do eleitor em identificar a qualidade de seus governantes é confirmada pela evidência de que em municípios onde houve aumento de receitas e melhora na oferta dos serviços públicos, houve sim um apoio superior aos governantes nas urnas.

A pergunta que fica é por que os eleitores pararam de reeleger seus governantes mesmo quando o orçamento público continuava recheado de royalties de petróleo? Existem algumas explicações possíveis, que não podemos confirmar por falta de dados. A bonança de petróleo pode ter aumentado as expectativas em termos de melhora de nível de vida, e como essas expectativas não foram atendidas, eles não viram motivos para reeleger seus governantes. É possível também que parte dos recursos tenha sido desviada e os eleitores resolveram punir os governantes que se revelaram corruptos. Essas explicações não são excludentes, mas em todos os casos mostram um eleitor que está aprendendo a escolher seu representante.

O que se pode extrapolar desse estudo para as eleições presidenciais? A analogia não pode ser feita porque o governo PT promoveu melhoras nas condições de vida, notadamente na distribuição de renda, mas contou na maior parte do tempo com uma conjuntura internacional muito favorável. Identificar o que foi sorte e competência requer cálculos estatísticos que não interessam ao eleitor comum.  Mas o fato de nosso estudo ser baseado na experiência brasileira recente traz evidências de que nosso sistema democrático funciona: os eleitores não reelegem governantes que não melhoram as condições de vida da população.

[1] É importante frisar que isso não quer dizer que os municípios não melhoraram suas condições de acesso a serviços públicos, mas sim que eles não viram seus padrões de vida melhorar muito acima dos seus vizinhos ou na proporção das receitas de royalties que estavam recebendo.

A dificuldade de acesso à saúde

Que a saúde pública vai mal e que a insatisfação com o setor é elevada já é sabido. Mas aonde e até que ponto o Sistema Único de Saúde (SUS) deixa a desejar?

Quando se olha para evolução dos indicadores de produção do SUS, nota-se o uso crescente dos serviços públicos de saúde. Entre 1998 e 2013, o número de consultas em atenção básica, por exemplo, subiu de 0,05 para 0,66 consultas por habitante[1]. No mesmo período, o número de procedimentos de média e alta complexidade saiu de dois procedimentos por habitante, em 1998, para dez procedimentos per capita, em 2013. Enquanto esses números certamente refletem um avanço na capacidade do sistema, eles não fornecem um retrato adequado do acesso aos serviços de saúde. Isso acontece pois indicadores de uso revelam a demanda que foi atendida, mas, em geral, não trazem informações sobre a demanda não atendida, ou sobre a demanda não observada — aqueles que não buscaram atendimento, mesmo precisando dele. Uma medida apropriada de acesso deveria considerar todas as dimensões acima, que somadas correspondem a demanda total por serviços de saúde em cada momento do tempo.

Naturalmente, a dificuldade em identificar a demanda não observada impossibilita a mensuração regular do acesso aos serviços. Entretanto, através dos suplementos de saúde da PNAD, cujo ano mais recente é 2008, é possível ter uma ideia da situação nessa dimensão. Assim, nota-se que, em 2008, 27,5 milhões de brasileiros procuraram os serviços de saúde nos 15 dias anteriores à pesquisa, mas 681 mil pessoas, ou 2% dos que procuraram, não foram atendidos. Além disso, 5,9 milhões declararam não ter procurado serviços de saúde por motivos como falta de dinheiro, distância do local de atendimento, horário incompatível, demora no atendimento, ou falta de especialista no estabelecimento de saúde. Assim, a soma dos dois conjuntos indica que um total de 6,6 milhões de pessoas ou 20% dos brasileiros que necessitaram de serviços de saúde não foram atendidos.[2]

Esses números não distinguem entre setor público, privado, SUS ou não SUS. Tentando obter uma medida mais específica do déficit de acesso no SUS, excluímos do total as pessoas que afirmam ter algum plano de saúde e assumimos que os demais são os dependentes do sistema público. Considerando as 23,5 milhões de pessoas que necessitaram de serviços de saúde nos últimos 15 dias e não tem plano de saúde, 6 milhões ou 25% dessa população declarou não ter tido atendimento de saúde. Já entre os 9,9 milhões que necessitaram de atendimento e tem plano de saúde, apenas 6% não foram atendidos. Este forte contraste está ilustrado na Figura 1.

Figura 1: População que precisou de serviços de saúde, mas não teve acesso – por posse ou não de plano de saúde

Fonte: PNAD/2008.

Fonte: PNAD/2008.

A análise de acesso a pessoas que necessitam do SUS por faixas de renda revela mais um contraste.  A Figura 2 mostra que entre os 10% mais pobres, 37% não teve acesso ao sistema quando necessitou, enquanto o mesmo percentual é de 13% entre os 10% mais ricos.

Figura 2: Percentual da população que precisou dos serviços de saúde do SUS, mas não teve acesso – por decil de renda

Fonte: PNAD/2008.

Fonte: PNAD/2008.

Os números apresentados também mostram que dentre a população que necessita de serviços de saúde em cada momento do tempo, além de 20% não conseguirem acessar os serviços, outros 28% são atendidos mas tem plano de saúde, o que sugere que apenas em torno de 52% da demanda é atendida pelo SUS, valor baixo para um sistema que se propõe a cobrir 100% dos brasileiros.

Assim, o que as evidências apresentadas revelam é que ainda há uma importante dificuldade de acesso aos serviços de saúde, que atinge principalmente os usuários mais pobres e dependentes do sistema público, comprovando que pelo menos em termos de universalização e igualdade o SUS ainda deixa a desejar.


[1] Todos os dados deste parágrafo estão disponíveis no DATASUS.

[2] Note, entretanto, que esse percentual inclui pessoas que dizem não ter procurado serviços de saúde porque o horário era incompatível ou porque não tinham acompanhante, motivos em que a oferta tem pouca discrição. Mas mesmo excluindo esse grupo de respondentes, observa-se que 5 milhões de brasileiros, ou 17% da população que necessitou de serviços de saúde, não foi atendida. Como “necessidade” define-se a soma daqueles que procuraram os serviços de saúde com os que precisavam mas não procuraram.

A (in)eficiência e o SUS

Já foi discutido aqui que apesar do gasto público em saúde no Brasil estar de acordo com a nossa renda, tendo em vista parâmetros internacionais, o Brasil parece gastar pouco em relação ao que seria necessário para cumprir os princípios constitucionais. Mas o que se sabe sobre a eficiência do nosso gasto? Nem todos os indicadores usados para avaliar a eficiência na área de saúde estão disponíveis para o Brasil, principalmente em nível nacional. Apesar disso, o trabalho de 2008 de Gerard La Forgia e Bernard Couttolenc – Hospital Performance in Brazil – e o relatório do Banco Mundial de 2013 sobre os 20 anos do SUS reúnem o que há de evidência disponível sobre a eficiência na rede hospitalar e ambulatorial brasileira. A conclusão de ambos é que o sistema de saúde brasileiro sofre de um grau generalizado e elevado de ineficiência. Dentre as evidências apontadas para sustentar essa conclusão estão:

 – A constatação de que o Brasil é um ávido incorporador de tecnologias médicas, muitas vezes adotadas sem uma avaliação de custo-benefício e alocadas em pequenos municípios, que não têm volume nem condições de administrá-las adequadamente. O resultado são razões desproporcionais de aparelhos por habitante, muitas vezes superando mesmo a dos países mais ricos da OCDE.

 – Ao calcular um indicador de eficiência do uso dos recursos em hospitais (DEA), La Forgia e Couttolenc notam que, no Brasil, a eficiência é muito baixa, de apenas 0,34 em uma escala de 0 a 1, o que significa que um hospital médio poderia produzir até três vezes mais se fosse tão eficiente quanto o mais eficiente hospital da amostra. Os índices são um pouco melhores para os hospitais privados (0,39) do que para os hospitais públicos (0,29), mas ambos são bastante baixos. Os autores afirmam que os principais determinantes para essa alta ineficiência seriam a pequena escala de operações, o elevado uso de recursos humanos e a baixa utilização da capacidade instalada e dos recursos técnicos disponíveis.

 – Em relação à escala de operações, os autores chamam a atenção para o fato de que 60% dos hospitais no Brasil são de pequeno porte (menor que 50 leitos), sendo que a evidência internacional sugere que o tamanho eficiente deveria ser entre 150 e 250 leitos. Devido ao tamanho, esses hospitais não têm escala suficiente para serem eficientes.

 – A utilização dos recursos também deixa a desejar. Por exemplo, entre 2005 e 2013, a taxa de ocupação média dos leitos hospitalares se manteve em torno de 50%; isto é, em cada momento do tempo apenas metade dos leitos disponíveis estava sendo utilizada.[1] A média internacional gira em torno de 70-80%. Na realidade, esse valor esconde uma grande heterogeneidade, com hospitais de excelência funcionando a plena capacidade e outros virtualmente parados, o que indica mais uma vez o potencial de melhora dentro do próprio sistema.

– Ainda outra fonte de desperdícios é a falta de padronização das práticas médicas, o que gera variações na resposta a diagnósticos similares e provoca a realização de exames desnecessários, afetando não apenas o controle de custos, mas a qualidade dos atendimentos e o potencial de aprendizado.

O que este retrato parcial sugere é que tanto aumentos de gastos seriam bem-vindos como ganhos de eficiência seriam necessários. Mensurar a contribuição potencial de cada um para o alívio dos gargalos da saúde infelizmente não é possível. Entretanto, uma coisa é possível afirmar: a ineficiência, provocada muitas vezes pela falta de informações, pela distorção de incentivos e por falhas de governança, tende a se perpetuar. E este fato faz com que qualquer melhora pequena que se busque na qualidade ou acesso à saúde exija uma quantidade de recursos muito maior do que a que seria necessária sob condições adequadas. Em um contexto onde o crescimento dos gastos de saúde é uma preocupação mundial, ignorar o elevado desperdício do setor parece uma irracionalidade. Se ainda levarmos em conta as particularidades do Brasil, como o gasto público substancial, o orçamento altamente engessado e as pressões de gasto que já são vislumbradas apenas pelas mudanças esperadas de perfil demográfico e epidemiológico, então podemos concluir que falar de gastos sem falar de eficiência indica que estamos no caminho errado para continuar garantindo a melhora da saúde no Brasil.


[1] Taxas calculadas com base em informações disponíveis no DATASUS.

Atlas Político: um aliado para o voto informado

Você se lembra em quem votou para deputado e senador na última eleição? Se você precisa fazer um esforço para se lembrar, isso já indica que você sabe muito pouco sobre o desempenho dos deputados e senadores que você possa ter ajudado a eleger. Essa é uma informação que poucos brasileiros possuem, seja porque o interesse pela atividade legislativa é baixo e/ou porque o custo de obter informação a respeito é muito alto.

Essa semana o país ganhou uma grande contribuição para reduzir o segundo problema. Entrou no ar o Atlas Político, um site criado por Andrei Roman e Thiago Costa, que juntaram seus conhecimentos de ciência política e matemática aplicada obtidos em Harvard para montar um site que na descrição deles “é uma ferramenta online largamente acessível a toda população para poder monitorar a atuação dos políticos brasileiros e de se engajar em apoio para aquelas iniciativas políticas e projetos de lei que consideram importantes para o país.”

Nesse site, eles colecionam e disponibilizam de forma acessível uma quantidade enorme de informações sobre a trajetória política dos deputados federais e senadores. Mas o valor da ferramenta não é apenas disponibilizar em uma única página da internet informações individualizadas sobre assiduidade, mudanças de partido ou origem dos recursos da campanha. A grande contribuição é fornecer informação qualificada sobre os congressistas. Por exemplo, o posicionamento político dos congressistas é computado de acordo com o histórico de votações de cada um e não com base no que eles declaram ser seu posicionamento ideológico. Além disso, há um ranking de congressistas que busca mostrar a competência dos congressistas em defender uma agenda política independente do conteúdo ideológico e que possui cinco dimensões: representatividade, campanha responsável, ativismo legislativo, debate parlamentar e fidelidade partidária.

AtlasPolitico

A validade de um esforço como esse é bem descrita pelos dois, quando mencionam os desafios de um projeto que visa disseminar informação: “Existe hoje no Brasil uma abundância de dados sobre quase qualquer coisa e a política não faz exceção disso. É a realidade do novo mundo da hyper-conectividade. O problema às vezes não é a falta de dados, mas o “data noise” – saber como separar o que é realmente relevante de uma quantidade enorme de informações inúteis. Então o nosso maior desafio não foi tanto achar os dados, mas entender o que era realmente importante. O segundo desafio foi de natureza técnica – cruzar bases de dados que não tem identificadores únicos, consertar erros e fazer a análise. O terceiro desafio foi de apresentar tudo de uma forma inteligível, mas ao mesmo tempo empolgante para todo mundo. Mas os nossos desafios não acabaram. Talvez os maiores estejam pela frente. Queremos que essa plataforma cresça.

Eles fizeram a maior parte do trabalho. Cabe a nós dar a nossa contribuição: divulgar a ferramenta e usá-la para escolher nossos políticos de forma mais qualificada.

Evidências sobre como melhorar o ensino

O Congresso Nacional aprovou em junho o Plano Nacional de Educação, que determina que até 2024, o governo brasileiro deverá investir 10% do PIB em educação, o que implica em praticamente dobrar os gastos atuais. Grande parte desse dinheiro corre o risco de ser desperdiçado se não for feito um esforço para entender quais são as políticas educacionais que afetam o aprendizado dos alunos. O que se sabe a respeito?

O estudo “Melhorando os Resultados Educacionais em Países em Desenvolvimento: lições de avaliações rigorosas”, dos economistas Richard Munane e Alejandro Ganimian, busca resumir quais são as grandes lições aprendidas em intervenções na área educacional. Suas conclusões são baseadas em 115 estudos que cobrem 33 países e utilizam métodos estatísticos rigorosos para avaliar intervenções na área de educação. Estudos rigorosos são definidos como aqueles que apresentam um método que permitam identificar uma relação de causalidade entre a intervenção e os resultados medidos, o que na prática consiste em ter um grupo de controle para comparar qual seria o desempenho dos estudantes na ausência das intervenções avaliadas e assim determinar o ganho incremental das políticas.

Os autores identificam quatro lições aprendidas com base nesses estudos.

Políticas que reduzem os custos de ir para a escola e provêm alternativas aos alunos para estudarem em locais que não sejam as escolas públicas tradicionais são efetivas em aumentar a frequência e a escolaridade dos alunos (anos de estudo concluídos), mas não aumentam de forma consistente o aprendizado das crianças. As medidas mais comuns nesse sentido são o transporte escolar público e oferecimento de merenda escolar. Além disso, políticas como o Bolsa Família, que buscam compensar possíveis perdas de renda decorrente do não trabalho da criança, ou vouchers que permitem crianças pobres estudarem em escolas privadas, são consideradas efetivas para aumentar a frequência escolar. Entretanto, os efeitos sobre o aprendizado das crianças é muito mais controverso, havendo estudos que mostram resultados positivos e outros que não.

Medidas que visam aumentar a informação que os pais e alunos possuem sobre a qualidade das escolas e os retornos educacionais aumentam o tempo na escola e o aprendizado dos estudantes. Exemplos nesse sentido são intervenções que informam os pais sobre o desempenho comparado das escolas nos exames nacionais ou que informam aos estudantes o aumento médio de renda esperado por pessoas que alcançam um determinado nível educacional. Entretanto, intervenções que visam aumentar o envolvimento dos pais nas escolas, por exemplo, fazendo com que eles participem das decisões da diretoria têm efeito menos comprovado.

Mais e melhores recursos não aumentam o aprendizado dos estudantes a não ser que eles afetem a rotina dos alunos na escola. Esse grupo de intervenções inclui as políticas educacionais mais comuns: a instalação de computadores nas escolas, distribuição de livros didáticos, o aumento no número de professores e a redução do tamanho das turmas. A evidência indica que disponibilizar novos insumos sem mudar as práticas de ensino não tem qualquer impacto sobre o como e quanto os alunos aprendem.

Medidas de estímulo ao aumento do desempenho dos professores através do pagamento de premiações financeiras condicionadas à melhora do desempenho dos alunos ou ao comparecimento às aulas são efetivas para aumentar o aprendizado dos alunos em contextos onde as condições de ensino são muito deficientes. Entretanto, há muitas dúvidas associadas a essas políticas. Existem receios de que os professores passem a focar suas instruções para aumentar o desempenho em testes específicos e há um limite para melhora imposto pela qualificação dos professores, que em alguns contextos é muito baixa.

Recomendo a leitura do artigo para quem tiver interesse em entender os detalhes de cada intervenção e os resultados encontrados. Cabe frisar, entretanto, que os resultados desses estudos não devem ser encarados como provas absolutas do que funciona ou não na área de educação. Parte das intervenções analisadas foi parte de projetos piloto, em pequena escala e implementada por ONGs. Os impactos podem mudar quando se aumenta a escala do programa ou quando se coloca o setor público como líder do processo de reforma. Entretanto, essas evidências oferecem uma luz sobre o caminho a seguir.

De forma geral, a conclusão desse e outros estudos é que existem muitas políticas que são efetivas em aumentar a escolaridade das crianças, ou seja, colocá-las na escola e fazer com que elas concluam um nível mínimo de anos de estudo. Como reflexo, muito se avançou em aumentar a quantidade de educação da população jovem no Brasil e nos países em desenvolvimento nas últimas duas décadas. Entretanto, prover educação de qualidade e em escala é uma tarefa muito mais árdua e um desafio que todos os países em desenvolvimento ainda enfrentam.